quarta-feira, agosto 7

Não virei as costas, mas comecei a olhar para um caminho diferente.

Ainda não se falava em Montessori, nem se partilhavam atividades, nem tão pouco existiam blogues e perfis de mães como hoje em dia, e já nós brincávamos juntos.
Já o repeti aqui várias vezes, o Gabriel surgiu numa fase muito especial da minha vida. Vivi a gravidez dele durante a licenciatura em Terapia Ocupacional e, durante o segundo trimestre de gravidez, estive a estagiar em pediatria.
Isto será sempre uma parte importante da minha história e, por isso, da história dele também.
Durante o seu desenvolvimento testei e apliquei muitos dos conhecimentos que adquiri. Comprovei teorias e modelos de desenvolvimento. Criei atividades para estimulação e procurei os melhores jogos e brinquedos para ele. Fui chatinha com as pessoas mais próximas, às quais terei sempre que agradecer, por terem respeitado as minhas decisões e acreditaram tanto no valor das atividades como eu. E, por isso, desde cedo, o Gabriel foi colecionando brinquedos muito especiais.
O Gabriel nasceu numa altura de mudança. Sem grande consciência, sempre acreditei que tudo na vida é passageiro, mas os primeiros anos de uma criança são fundamentais. O meu estágio de pediatria foi em multideficiência, e por isso, conheci casos completamente diferentes uns dos outros. Percebi que o nosso papel é importante desde o nascimento, que a nossa interação deve começar desde então. À custa disso, quis viver os primeiros anos do Gabi ao máximo, fiz questão de estar presente em tudo. Paralelamente, tentava dar conta do resto: do casamento, da profissão, da casa, dos amigos e de mim. Julguei conseguir cada coisa da forma mais perfeita possível. Até perceber que a realidade não é bem assim.
Não importa explorar todas as coisas que me desafiaram desde então, nem tão pouco os dilemas com os quais tive que lidar. Acho que nada acontece por acaso, mas acredito ainda que nunca devemos desistir dos nossos sonhos.
Comecei a pesquisar na internet experiências e opiniões de outras mães. Queria perceber até que ponto eu estaria a falhar ou não. Eram escassos os relatos e os primeiros que encontrei eram maioritariamente oriundos do Brasil. Oh povo bom! É incrível a forma como os brasileiros relatam cada acontecimento. Eles relatam tudo de uma forma tão pormenorizada que é impossível não viver cada coisa em conjunto com eles. Em Portugal, não encontrava o mesmo tipo de conteúdo, de partilhas ou de experiências. À medida que o Gabi crescia, eu acreditava que essa informação faria falta a mais pessoas como eu. E comecei a querer fazer algo para ajudar outras mães. Mas, antes de tudo isso, precisei passar por um processo enorme de crescimento pessoal. Sou muito envergonhada, medricas como tudo. Entro quase em taquicardia só de pensar que alguém pode ler o que publico. Mesmo que não pareça, este é um dos obstáculos que sempre quis ultrapassar.
Em 2016, a planear o segundo filho, sabia que estaria na altura ideal para dar um bocadinho mais de mim, para me desafiar, para enfrentar os meus maiores medos.
E por isso, este cantinho, para além de um hobbie, em 2016 ganhou um novo significado. Mas, nem sempre aquele ditado “basta acreditar” está correto. Em 2017 tive que suspender todos os planos, por não ser capaz de dar conta do recado. Deparei-me com uma das maiores dificuldades até à data: a incapacidade. Mas, a vida é feita de fases. E em cada fase, aparece sempre algo ou alguém que nos transmite luz. O ano passado, a meio de decisões importantes, tive que decidir o que fazer com parte dos meus sonhos. E, no meio de muitos reboliços e incertezas, comecei a acompanhar novamente alguns blogues, de entre os quais, o blog No Colo da mãe, da Andreia. As suas partilhas despertaram algo em mim, algo ao qual não sabia dar resposta: continuar ou não a alimentar o sonho de ajudar outras pessoas com a minha experiência enquanto pessoa, mãe e profissional? Tinha estado em modo off para esta coisa das redes sociais e mantinha o desconhecimento sobre o interesse pelas atividades com crianças, em Portugal.
Voltando novamente a 2016, na altura em que tudo parecia estar a dar certo, quis iniciar uma nova fase e explorar mais do que fazia cá em casa para que, com o nascimento da Estrela, pudesse partilhar de que forma encaro o desenvolvimento infantil. A Andreia apareceu para me ajudar a encontrar a resposta. Não sou pessoa de desistir de nada, muito menos dos meus sonhos. Mas, podemos sempre adaptá-los, e concretizá-los com objetivos diferentes. Percebi que, em Portugal, o interesse por explorar a maternidade e trocar ideias e experiências começava a ganhar forma. De facto, as mães portuguesas pareciam interessadas em ganhar consciência sobre o seu papel  e participarem de forma mais ativa no desenvolvimento dos filhos.
E é aqui que o meu coração não me deixa abandonar o que me faz sentir mais completa: este blog. À medida que acompanhava cada atividade, sentia que não podia abdicar de algo que me fazia tão feliz. Precisava de manter o blog, mesmo que sem o plano anteriormente traçado. Ele será sempre um hobbie, e quero alimentar apenas isso. Agradeci à Andreia. Agradecerei sempre. Porque se fez luz. Falo dela porque é especial. Porque partilha de corpo e alma muitas das coisas em que acredito. Porque é genuína e acredita na maternidade tanto quanto eu. É disto que eu gosto. Não poderei nunca desistir de fazer algo que me faz bem. Na altura, isto não estava claro para mim. Tinha sonhado com tantas coisas e nenhuma delas fui capaz de levar até ao fim. Confrontei-me e aceitei a fase pela qual passei. E tudo começou a ser mais simples. Mesmo que surjam novos contratempos ou volte a mudar de vida, é aqui que eu encontro a paz, é aqui que eu me sinto completa. Gosto de desenvolver mais conhecimento sobre o desenvolvimento infantil e humano e de trocar experiências sobre algumas das coisas que considero fundamentais.
Hoje é um dia especial. Ele marca uma mudança na minha vida. Expor algo tão pessoal e, no fundo, resumir todo este percurso é algo profundo. E eu sei que esta partilha será benéfica para mim. Preciso resolver alguns dilemas para avançar com novos planos. Não quero atingir nenhum objetivo ou alcançar uma meta. Estou apenas a tirar da gaveta algumas coisas que guardei para deixar espaço para coisas maiores.
Obrigada a todas as pessoas que nos acompanham, que confiam em mim.
Se algum dia pensei em desistir, hoje sei que não seria eu se o tivesse feito. Não virei as costas, mas comecei a olhar para um caminho diferente. Por isso, desculpem lá qualquer coisinha, mas continuarei a espalhar "lamechiches" por aí. <3




terça-feira, agosto 6

Hoje, todos olham para ti e te chamam de princesa...

Minha princesa,
Hoje, todos olham para ti e te chamam de princesa.
Hoje, todos olham para ti e admiram a tua beleza, a tua serenidade.
Mesmo nos dias em que estás mais aborrecida, a protestar com cólicas ou outra coisa qualquer, todos adoram esse teu jeito de mostrares ao mundo que não estás bem.
Hoje, todos querem pegar em ti ao colo, acarinhar-te, abraçar-te, suportar as tuas dores.
Hoje, todos fazem uma pausa para te cumprimentar, mesmo sem te conhecer.
És tão pequenina e já és tão importante, não só para nós, mas para toda a gente em redor.
Adoraria dizer-te: vai ser sempre assim.
Adoraria dizer-te que todas as pessoas irão ter esse cuidado todo contigo para sempre.
Adoraria dizer-te que toda a gente olhará para ti como a mais bela, como uma princesa, que todos compreenderão sempre tão bem as tuas dores e estarão sempre disponíveis para te dar um colinho ou aconchego.
Adoraria dizer-te que sempre serás entendida quando te manifestares e mostrares ao mundo que não estás bem ou que te faz falta algo.
Adoraria, meu amor. Adoraria. Mas, não o posso fazer.
Como tua mãe, tenho que te preparar para a realidade. Serás sempre a minha princesinha, estarei sempre aqui para te dar um colinho ou um aconchego, estarei sempre aqui para compreender as tuas dores e as tuas manifestações, e para em todas elas te apoiar.
No entanto, o mundo não está preparado para te acompanhar para sempre da mesma forma que o fazem hoje, ao ver-te assim, tão pequenina.
Tu vais crescer e as pessoas aos poucos vão afastar-se de ti. À medida que fores crescendo, as pessoas deixarão de te cumprimentar quando te virem chegar. À medida que fores crescendo, as pessoas deixarão de enaltecer as tuas qualidades, a tua beleza, a tua serenidade.
À medida que fores crescendo, as pessoas deixarão de compreender que poderás não estar sempre bem, e que terás necessidade de mostrar a tua opinião.
À medida que fores crescendo, as pessoas deixarão de te chamar de princesinha, de bonequinha. Serás para elas uma simples menina, rapariga, mulher.
À medida que fores crescendo, algumas pessoas poderão querer mesmo afastar-se, outras olhar-te de lado. Esta distância será proporcional ao teu sucesso.
Não estranhes que tudo isto aconteça.
Sabes, minha princesinha, à medida que fores crescendo, toda a gente à tua volta também estará a crescer. E à medida que as pessoas crescem, tornam-se egoístas, invejosas e incapazes de reforçar as nossas qualidades. Não deveria ser assim, mas é. Não é por tua culpa que isto acontece. É por culpa delas próprias. Nem todas as pessoas têm a capacidade de cultivar o seu amor-próprio, e por isso, têm necessidade de invejar a beleza e as qualidades dos outros, omitindo que as admiram.
Mas tu, meu amor, quero que aprendas o quão importante é demonstrar aos outros que gostamos deles. Quero ensinar-te a chegar e cumprimentar, a elogiar sempre que possível, quero ensinar-te a compreenderes as dores do outro e a apoiares. Quero ensinar-te a seres para os outros como os outros deveriam ser para ti. E, mesmo que isso não aconteça, quero ensinar-te que isso nos faz bem.
Quero que sejas tão feliz, mas tão feliz, que sejas feliz por simplesmente teres tudo o que tiveres, e por teres força e determinação para lutares por aquilo que acreditas, sem olhares para o que os outros têm ou são.
Quero ensinar-te que, apesar da vida não ser tão linear quanto isso, tu terás sempre a melhor coisa do mundo: o amor dos teus pais e do teu irmão.
Amo-te pequena Estrela. Amo-te e sempre irei amar.




Repost de 24.04.2017

segunda-feira, agosto 5

Há elogios que nos fazem pensar...


Por onde vamos, as pessoas elogiam sempre a beleza da Estrela. Admiram o seu sorriso, o seu cabelo cor de oiro. Às vezes, o Gabriel também recebe um elogio, no fim, por alguns, por quem compreende que o mais velho também deve ser considerado. É sempre algo do gênero "tu TAMBÉM és lindo". 
Às vezes, fico um bocadinho triste quando isto acontece. Porque é sempre colocado em segundo lugar ou nem tido em consideração.
Outras vezes, como desta, fico a pensar no que isso implica. No fundo, isto é uma situação transversal a muitas outras. Faz parte da atitude do ser humano elogiar o que é mais pequeno, o que de certa forma dá nas vistas. Faz parte do ser humano elogiar pela forma, pelo aspeto, pela aparência, aquela que existe associada a padrões de beleza. A Estrela destoa por ter cabelo claro. Mas e o resto, não conta? O que está dentro, que não se vê, o que nasce e permanece connosco, o que é a base de toda a nossa essência?
Compreendem o que quero dizer? O que pensam sobre isto?
Partilharei mais dois textos sobre este assunto, mas gostava imenso de ter a vossa opinião. Hoje fica apenas isto em jeito de desabafo/pensamento alto. Fico à espera das vossas opiniões. Beijinhos 😘
[Desabafo/Pensamento]



segunda-feira, julho 29