quinta-feira, junho 16

Estás preparada para o parto? Claro que não!

 

“Estás preparada para o parto?” – Esta foi uma das perguntas que mais me fizeram durante a gravidez do Gabi. Uma jovem mamã, com carinha de bebé. Era óbvio que iriam perguntar. Mas… Eu nunca respondi de forma objetiva. Tentei sempre fugir, mas dentro de mim havia aquela vozinha que gritava "Parto? Como assim? Claro que não!"

 

A gravidez do Gabi foi maravilhosa. Apesar de não ser imune à toxoplasmose e ter feito um esforço redobrado para não adquirir nenhum problema (e passar para o bebé), tudo foi feito com muito cuidado. Conversei imenso com o Gabi, cantei imenso, partilhei todos os momentos do meu dia-a-dia com ele.

Ele acompanhou-me em todas as fases e em todos os momentos em que tive medo. Ele foi o meu foco e o motivo para eu focar-me nas coisas boas da vida.

Se, por um lado, ele foi um elemento protetor para tudo o que vivi, também era o único elemento que não podia “proteger-me” do medo do parto. Afinal de contas, ele teria que sair. Teria que sair por algum lado, fosse de que forma fosse.

 

Sei que hoje em dia as grávidas fazem planos de parto, descritos com rigor e precisão, sem deixarem escapar nenhum pormenor. Há 13 anos atrás nem se ouvia falar sobre isso.

Mas tenho a dizer, eu fui a grávida que não fez plano de parto algum (e talvez voltasse a ser, oops).

Era tanto o medo do parto que evitei falar sobre esse momento durante toda a gravidez. Eu sabia que esse momento iria chegar. Mas, ao contrário da maioria não queria pensar sobre isso. Tinha medo, pavor, horror! Acho que tremia só de pensar. Ficava aflita quando alguém abordava o assunto e era quase obrigada a pensar. Por isso, para mim, a solução foi “ignorar”.

Sei que pode parecer ridículo, sobretudo hoje em dia, em que a informação circula com facilidade e parece quase impensável ir para um bloco de partos sem pensar sobre o parto.

Mas, sabem uma coisa? Dizem que a ignorância nos permite ser felizes. E eu preferi viver assim.

 

No entanto fiz o que me competia, o que tinha à disposição. Completei a preparação para o parto que a maternidade oferecia, preparei-me com a informação necessária. Mas não pesquisei nada mais do que isso. As minhas preocupações estavam focadas em coisas que eu podia controlar, como a alimentação que podia ingerir, os perigos que devia evitar. O parto não. Não podia controlar e se me debruçasse sobre o assunto não iria controlar o meu nervosismo também.

 

Muitas foram as vezes que me questionaram sobre o parto, se me sentia preparada, e eu sempre rejeitei explorar esse assunto.

(E ainda dizem que sou corajosa, ahah).

 

A verdade é que o Gabi nasceu. :) 

Mas sobre como correu conto depois.

 

Contem-me vocês, tiveram medo do vosso primeiro parto? O que fizeram para superar esse medo?

Ignoraram como eu ou tentaram saber tudo e mais alguma coisa para se sentirem preparadas?




quarta-feira, junho 15

Quando não há família, há AMIGOS!

 

Continuamos a explorar pedacinhos da minha jornada. Sim, esta semana ando a dedicar-me a refazer toda a história. Sabem aquela sensação de liberdade quando, finalmente, conseguem falar sobre algo? É isso que eu sinto. Foram 13 anos a batalhar para abrir as portas do meu coração. E sempre, por medo, parei.

Para mim, faz todo o sentido partilhar sobre este processo aqui. Afinal de contas, este blog surgiu quando me tornei mãe pela primeira vez. Talvez tivesse criado outro, se não tivesse engravidado. Talvez... Mas não seria o mesmo. Nem eu seria igual.

Por isso, fiquem desse lado se quiserem ler mais um pedacinho.

 

Hoje quero falar-vos sobre amizades. Em tantos anos, esta é a primeira foto que partilho publicamente com amigos próximos (partilhei uma ou outra pelos stories do instagram, nada mais. O facebook não conta porque só tem acesso quem eu aceito para fazer parte). Não gosto de expor os meus. Não sinto que o deva fazer. Afinal de contas, dou a cara por tantos temas diferentes que não lhes quero trazer nenhum tipo de associação ou dificuldade. Não critiquem, chama-se privacidade. Porque eu escolhi estar aqui e expor-me, mas eles não.

 

Mas, introduções aparte, vamos continuar…

Se, por um lado, às vezes a família nos falha, por outro temos os amigos que podem ser o nosso porto de abrigo. Comigo foi (é) assim.

 

Aqui, gravidíssima do Gabi e com uma das minhas melhores amigas da vida!

Quando nos falta a família, quando nos falta aquele porto de abrigo que todos nós precisamos, aquele lugar para onde vamos quando nos sentimos perdidos, é nos amigos que encontramos esse amparo.

Os meus amigos foram e são o meu porto de abrigo, o meu refúgio, o meu lado mais seguro. É a eles que confio a minha própria vida.

Foram muitas as vezes que chorei no seu abraço, foram muitas as vezes que desesperei à sua frente. Mas foram tantas as vezes que eles tentaram trazer o melhor de mim. Se nunca caí, se ainda hoje me mantenho de pé é também, e muito, graças a eles.

Quando me senti perdida, sem norte, sem noção do que era a minha nova realidade (e na verdade, eles também não), foram eles que me recordaram quem eu era afinal. Foram eles (e ainda são) os que mais acreditam em mim, na minha força, no meu potencial. São eles que, conhecendo os meus defeitos, me impulsionam a focar nas minhas qualidades. Tantas e tantas vezes senti-me fraca. E tantas e tantas vezes, com eles, me fortaleci.

Fui a primeira dos meus amigos a ser mãe e mesmo assim eles nunca me abandonaram. Eles sempre puxaram por mim, para que eu continuasse a viver coisas “normais” para a minha idade e, muitas vezes, eu fugi. Fugi porque eram muitas as mudanças, as adaptações, as dúvidas e a culpa que carregava enquanto mãe. Mas mesmo assim, eles nunca me abandonaram. Sempre aceitaram a pessoa em quem eu estava a tornar-me. E sempre que lhes foi possível tentaram adaptar-se da melhor forma possível à nossa nova realidade.

 

Não posso negar que senti várias vezes falta de ter uma família, não uma em particular, mas alguém que me conhecesse desde sempre, alguém em quem eu pudesse confiar. Por muito que os meus amigos estejam sempre ali para mim, há momentos em que distancio-me para me equilibrar. Já suportaram tantas e tantas vezes as minhas dúvidas, incertezas, medos, interrogações, que eu fui tentando poupá-los de vários dilemas. Mas eu sei que, no dia em que me faltar o chão, é a eles que irei recorrer para me reencontrar.

 

Ter uma família é importante. Mas olhem que ter amigos é muito mais especial!

E eu sou realmente uma pessoa muito afortunada. (E estou cheia de saudades deles. Estou tão ansiosa para os voltar a abraçar! Um por um. E todos juntos! Gosto tanto de vocês.)

 

 


terça-feira, junho 14

Porque nunca existi sendo "apenas eu".

Vocês não existem. É, hoje começamos assim. Obrigada por todo o vosso carinho, pelo tempo que dedicam a ler cada partilha minha, nossa. Obrigada!

Vocês fazem parte de um processo enorme de redescoberta sobre mim mesma, de superação, e vocês nem têm ideia do valor que isso significa para mim. Ontem, depois da minha partilha, fiquei sem reação. Foram tantas, mas tantas as pessoas que perderam tempo do seu tempo a ler o que escrevi. Isso enche o meu coração de carinho, de amor e de esperança. Hei-de continuar a lutar por evoluir nesta jornada da vida,…

 

Nunca partilhei a minha história desta forma, tão específica, tão delicada. Nunca fui capaz. De todas as vezes que tentei, senti os dedos tremer, os olhos brilhar e perdi a coragem de apertar no botão e partilhar.

O que tem a minha vida de interessante para partilhar? Porque perdem vocês tempo do vosso tempo a vir aqui? Não sei bem. Eu não sou ninguém. Nunca me achei especial ou superior. Não precisam de contar, se não quiserem, mas sintam-se recebidos com carinho e amor.

 

Mas, focando na partilha e mensagem de hoje;

Esta é uma das fotos que melhor me representa. Eu, segurando ao colo o primeiro presente que a vida me deu: o Gabi.

Já disse várias vezes que nasci quando o Gabi nasceu (Por isso, fazendo bem as contas, teremos mais ou menos a mesma idade. Sim, às vezes também faço birra, às vezes também não quero lavar os dentes ou dormir. Brincadeira.)

 

Falando a sério: Nasci para o mundo quando me tornei mãe. Porque foi na mesma altura em que larguei tudo e comecei do zero. Mas, ao invés de ter tempo para aprender sobre mim, longe de uma responsabilidade maior, a de cuidar de um filho, eu fi-lo através dele. Nunca gostei de dizer isto porque não podemos comparar vidas, nem experiências, nem situações, mas não tenho dúvida que o grau de exigência foi grande por ter sido assim.

Eu nunca me conheci sozinha, sendo “apenas eu”. Durante 21 anos “cumpri o papel de filha, de irmã (ou pelo menos, tentei)”. Depois disso, comecei uma nova jornada, assumindo o papel de mãe. Não existi de forma singular no entretanto. Nunca fui “apenas eu". Nunca fiz apenas o que queria, nunca segui os meus sonhos quando e como queria, nunca decidi nada sozinha, nunca geri a minha vida apenas por mim. Eram tantas as limitações.

Bem... Não será de todo verdade, apesar de não ser de todo mentira. Porque nunca deixei de tentar alimentar o que me fazia bem, apesar de condicionada de diversas formas (um dia falaremos sobre isto também).

Enquanto “apenas eu”, Luisa, fiz várias coisas, participei em imensas experiências diferentes. Algumas perdi, porque mudei de vida, de direção. Algumas recuperei depois. Sempre escrevi, sempre me desafiei, sempre fiz amigos, sempre sorri, sempre chorei, sempre procurei uma solução,… Apesar das limitações que vivia, sempre tentei ser “livre” e “ser eu”, encontrando um bocadinho de mim em cada projeto do qual fazia parte. Tive tanta sorte e o privilégio de ter feito e participado em tantas coisas diferentes. E é isto que eu encontro como sendo “meu”.

 

Com um filho nos braços, tive que aprender a lidar com os meus fantasmas e desafios. Com um filho nos braços tive que conhecer a minha nova versão, não tendo tido oportunidade de colocar em prática a versão antiga.

 

E depois do Gabi, veio a profissão, a casa para gerir, a vida adulta para segurar. Não foi fácil encontrar-me, não foi. Ainda hoje continuo a procurar-me. Mas hoje consigo assumir que não foi tão simples assim, apesar de encarar cada experiência como algo natural. O que me fez continuar? O amor, pelos meus e pela vida, a vontade de vencer desafios, colocados por mim mesma ou pela vida, e a vontade de me conhecer, de saber quem sou por completo. A vontade de compreender cada pedacinho da minha história. De perceber do que esta menina, tímida e ingénua é capaz. O que ela tinha dentro de si para dar ao mundo? Talvez um bocadinho de… (?)

 

Digam-me vocês, se souberem porque eu ainda não sei.

E contem-me, o que têm vocês para dar ao mundo?


 

Mensagem: Todos temos uma vida, repleta de coisas lindas e maravilhosas e/ou desafios. Por vezes, a paz que as pessoas transmitem não traduz metade dos desafios que enfrentam. Não julguem, não ignorem as dores e dificuldades de ninguém. Estejam abertos para conhecer o outro e abram horizontes para se conhecerem melhor, também. J




segunda-feira, junho 13

Toda a verdade sobre a minha Primeira Gravidez.


Há 13 anos atrás… Estaria a viver o fim da minha primeira gravidez. O fim de uma gravidez mágica, perfeita. O fim de uma gravidez que acrescentou vida, magia, um futuro e uma família à minha vida.

Nunca escrevi sobre isto antes. Sempre senti arriscado demais. Mas, sabem que mais? Passados 13 anos estou cansada de esconder-me, de colocar o medo e os receios em primeiro lugar. Se voltarmos atrás no tempo, recordaremos como tudo começou…

 

Era Outubro de 2008. A minha vida estava virada do avesso, estava completamente “de pernas para o ar”. Tinha mudado de curso no ano anterior, começado uma nova relação,… Estava numa fase nova e tinha tudo para encontrar o meu ponto de equilíbrio e para ser feliz. Menos a felicidade. Ah, e a liberdade para a sentir. Depois de uma longa jornada, de tentativas de formas diferentes, tinha chegado à conclusão de que onde eu vivia isso não era possível. Precisava de fazer esse luto. (Não vou entrar em pormenores. É delicado demais para partilhar. Prometo que, um dia, haverei de lá chegar. Mas talvez não por aqui.)

De forma romântica, “para procurar ser livre e feliz”, deixei a casa dos meus pais nesse ano e mês. No mesmo dia, percebi que perdera aquela família para sempre. Imaginava dificuldades para ultrapassar quando tomei a decisão de ir “passar uns dias fora de casa”. Precisávamos de distância uns dos outros para repensar na vida, na nossa relação. Sempre analisei muito todas as situações e a verdade é que também o medo me fez agir com precaução. E ainda bem. Por segurança, por prevenção.

Apesar de não entrar em pormenores, vocês podem imaginar o quão desafiador o terá sido. Estaria a viver o momento mais turbulento da minha vida e não imaginaria sequer viver uma gravidez ao mesmo tempo. Nunca a tinha planeado, nem sequer imaginado. A verdade é que a vida não obedece a planos, porque ela sabe mesmo o que faz.

Semanas depois de sair de casa descobri que estava grávida. Estava grávida! Eu! Uma menina, frágil, meio perdida, a tentar encontrar o rumo certo para a sua vida. Mas era real! Eu estava grávida do Gabi. Iria ser mãe! Era mãe! Não houve decisão a tomar porque não houve sequer questão a ponderar. Estava grávida do meu anjo! Sabia que era uma dádiva! Só podia ser. Sem família, sem nada que me pertencesse mais, decidi encarar o futuro com o apoio que me fora ofertado (o melhor apoio do mundo no momento mais crucial).

No meio do reboliço daquela fase, vivi a gravidez entre dois extremos: a felicidade de quem tem um bebé a gerar-se dentro de si e de quem vive uma quantidade infinita de problemas, que não pode controlar e com os quais precisa de lidar e enfrentar.

Fui acusada de tudo e mais alguma coisa. Fui insultada, perseguida. Senti-me ameaçada. Mas eu tinha que o proteger. Eu tinha que ser forte, de ter paz para dar o melhor de mim ao meu primeiro bebé. Nem acredito que eu, ainda menina, me tornei mãe. Se, por um lado, não tinha mais ninguém para chamar de família, por outro tinha TUDO o que precisava para começar a construir a minha própria família: o meu primeiro bebé.

Durante a gravidez não fiz mais do que acreditava ser necessário. Cuidei de mim tanto quanto pude, da alimentação, estudei muito, bebi toda a informação. Esta parte não foi difícil porque estava a estudar o módulo de pediatria no meu segundo ano de terapia ocupacional. Como foi importante aprender sobre tudo aquilo. Como foi importante viver esta experiência durante aquele momento.

Por outro lado, chorei muito. Chorei pelo luto, pelo medo, pelas dúvidas e pelo pesadelo que assombrava do outro lado. Chorei por tudo o que tinha perdido: lugares, pessoas, memórias da minha infância e do meu eu passado, que nunca mais recuperei.

Mas eu era mãe. Não era apenas uma menina acabada de sair de casa. Era uma nova mulher, chamada pela vida para amadurecer à força. Mas tinha que ser. Teve que ser para que eu encontrasse um novo propósito de vida.

 

Tentei mudar de vida e procurar uma liberdade que nunca tive, para viver a minha vida. Mas nada disso aconteceu. Tive que aprender que ser livre não é só sobre fazer o que queremos, quando queremos. É muito mais subtil. Ser livre é ter a possibilidade de escolha, mesmo que condicionada por aquilo que te faz feliz. E fez todo o sentido aprender aquela lição. Era isso que eu, sem saber, procurava. E a vida deu-me, mais depressa do que alguma vez imaginara, essa lição.

 

A minha primeira gravidez será sempre um marco gigante na minha história. Se todos bebés têm um propósito, não tenho dúvidas que o propósito do Gabi foi o de dar um propósito à minha vida.

Aproveitei a gravidez ao máximo. Fui muito feliz. E ainda sou, de cada vez que paro para a recordar.

 

Se há mães que passam por sustos durante a gravidez, os sustos que passei foram por ruídos externos, por tantas outras coisas, que por muito que me tivessem feito chorar, fortaleceram-me. Porque eu ganhei dois motivos para viver.

 

Obrigada, Vida, por esta oportunidade de viver!